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Ao
censor:
Lê e critica meu
verso,
Que te é permitido
fazê-lo.
Só não me prives, te
peço,
Do direito de
escrevê-lo.

Áurea
Hago poemas
en versos negros
y versos blancos
para que todo poema
sea libre.

Classificado
Contrata-se um
assassino, um
matador de aluguel
que tenha na
profissão bastante
experiência.
Deve ser frio,
calculista,
insensível e cruel.
Exige-se carta de
referência.
Quem o trabalho
puder assumir,
favor encontrar-me
na mais triste praça.
Direi que a vítima
não vai reagir,
que é homem
semimorto,
descartável e sem
graça.
Mas que seja
certeiro o tiro ou o
golpe do punhal:
não quero que o
ferido se arrependa.
Melhor no coração,
pra ser fatal.
Depois, já não
haverá dor ou
ferida.
E que o contratado
não se surpreenda
ao saber que o
pagamento é a minha
vida.

Criatura
Quimagem é esta de
mulher que me
persegue,
vinho suave que eu
sequioso me
embriaga,
que teima em existir
por mais que eu
negue,
me abraça, me
incendeia e logo se
apaga?
Ave branca que
atravessa meu
caminho
e cruel, com seus
beijos me amordaça,
me faz enlouquecer
com seus carinhos,
depois me abandona
esvoaça...
Por que me segues
tanto, ó criatura,
vinda de um sonho
antigo ou do futuro,
me dás a ilusão de
uma ventura
e então me deixas só
no quarto escuro?
E assim, abandonado
os dias passo,
fechado, longe de
tudo, enfadonho,
ansiando pelas
noites quando abraço
a doce imagem dela
quando sonho.
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Envoltura
¿Idiota! ¿No ves que
nada eres?
Apenas fina capa
mohosa te protege
de la podredumbre.
Gusanos hambrientos
te rodean.
¿Ignoras que en un
pase mágico, en un
segundo apenas
cae por tierra toda
la altivez y el
bello
papel de regalo
revela la fétida
masa?
El gusto amargo de
la hiel, la visión
incierta,
el torcerse de las
piernas, el
descontrol total...
todo es inevitable!
Cualquier día serás
presa fácil:
el tiempo es
impiedoso.
El trágico fin no
depende de tu
voluntad.
La arrogancia que
derramas no pasa
de ser faceta inútil
de tus diversas
faces
vanas y mundanas.
Al sol poniente, el
rostro marchito y
los huesos corroídos
dolerán más que en
aquellos que
tuvieron
la precaución y el
buen tino de ser
simples y ocultos.
Quedarán tus lindos
cabellos...
¿Y qué utilidad
tendrán tus
cabellos, hilos
huérfanos y
subterráneos,
dispersos, opacos
sobre los huesos.

Divergências
Sendo o beijo
sutileza,
o teu beijo já não
sinto,
pois ao beijar-te
pressinto
que em meus lábios
outro beijas...
Se me imploras
abraçar-te
e em meus braços te
enlaço,
tudo é vão, pois o
abraço
não é meu: 'stou
noutra parte...
Eis tu, muda; eis-me
mudo
na solidão da noite
calada.
Sabes que para mim
já não és tudo;
sei que para ti
também sou nada.

Fantasia
Para Rosangela de
Fátima
Ó bela Flor,
purpúrea, serena,
de sutil formosura,
eflúvio de rosas....
Desvelada Flor,
sublime, amena,
mescla escarlate das
veias ardorosas.
Ó infinita Flor,
plácida, aérea,
rubra Flor dos meus
anseios...
Visão indelével,
magicamente etérea,
lampejo de cor dos
devaneios...
Ó Ros'angelical,
rósea Flor mirim,
fulgente glória dos
meus sonhos,
cobre-me com pétalas
carmim!
Ó majestosa Flor,
pujante e sincera,
sê real! Dissipa a
névoa do medonho,
ó inefável Flor de
Quimera...
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Insurrecto
Misérrima
vida
de favela
que viví.
Desvalida
vida ávida
desprovista,
vida sin brío,
bajo puentes,
sobre ríos.
La vi vil,
hostil,
dividida.
Quisiera verla
a la luz de velas,
vajillas...
¡Ah! Vida vil,
vil vida.
¿Vio vida más vil?
¿Vio?
Oh Orco!
Al verme
vil gusano,
osaré verla
in extremis
a la luz de velas!

Lluvia
Un cuerpo sobre la
mesa -
y fuera el día llora
aguas de la tristeza.

Nostalgia
Helena? Helena? Onde
'stás agora?
Apesar do pouco
tempo da partida,
a lembrança me
castiga, faz ferida
e a tristeza
solidária me namora.
Onda calma de sono
me invade
quando oscilo sobre
a rede no quintal.
Teus beijos... teus
abraços... teu rosto
divinal...
que saudade, Helena!
Que saudade!
Tremor vago o meu
corpo já domina,
ao sentir que a bela
fantasia
s'esvaece logo que o
sonho termina.
E quem entende a
minha dor, o meu
desgosto
e a escassez que há
em mim de alegria,
é o zéfiro que banha
o meu rosto.

Partida
Devo partir hoje,
o mais tardar amanhã.
E não quero que me
vejas hoje,
para não guardares
de mim uma saudade
triste,
uma saudade recente,
pois agora estou
assim, triste,
por saber que hoje,
o mais tardar amanhã,
não poderei mais te
ver.
Quero que guardes de
mim
uma lembrança feliz
de ontem,
quando rimos, quando
brincamos,
quando meus olhos
brilhavam ao te ver,
quando eu ainda não
sabia que ia partir.
Não quero te ver
hoje,
para que guardes de
mim
apenas o que viste
ontem nos meus olhos
e o que sentiste no
meu corpo.
Quero que fique
contigo
apenas o que levarei
de ti comigo:
alegria, alegria,
alegria!

Poema
furtivo
O poeta ao falar de
si fala dos outros,
Que cada um tem um
quê do outro.
Tudo é como se fosse
um amarrio de cordas
Seguidas,
compassadas,
continuadas.
O poeta ao falar dos
outros fala de si,
Que cada um outro
tem um quê de nós,
Cada um vive a vida
alheia sem saber
E morre na morte do
outro.
Cada poema é
impessoal, é de
todos,
Ainda que impregnado
de evidências da mão.
O meu seu poema dele
não existe.

Prisão e liberdade
À noite, o rosto nas
grades da janela
do colégio interno
onde estudava,
perguntei ao padre
que cidade era
aquela,
toda escura, de onde
nada se escutava.
Aos domingos, muita
gente lá passeia
e outras, brancas,
imóveis - serão
guardas?
Em novembro de
flores fica cheia
e de velas as finas
ruas enfeitadas.
-Que cidade é esta,
diz pra mim,
que me atrai com
seus noturnos
mistérios?
O padre me olha
sério e diz por fim:
-Ali moram reis e
rainhas de finados
impérios,
ricos, pobres,
crianças, todos que
dormem, enfim...
Aqueles muros
brancos, filho, são
os muros do
cemitério.
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Substancia
(Poema en italiano)
Para Rosangela de
Fatima
Mi trovo tante volte
pensando a te
e visualizzo la tua
perfetta forma di
donna,
di giorno a sfiorare
le labbra di velluto,
la notte ad
accarezzare la seta
dei capelli.
Se sei lontano da
me, giorno dopo
giorno
ti trasformo nella
delizia del frutto
che apprezzo,
nella frescura
dell’acqua che mi
sazia la sete
e nella sostanza che
mi permette il
domani.
Posso sentirti nella
soave brezza
mattutina,
nei primi raggi del
sole che mi
riscaldano
e sempre ti vedo in
ogni oggetto, in
ogni volto,
in ogni goccia di
brina della verde
erba
e nel battito delle
ali delle rondinelle…
sono piccolino
davanti alla tua
presenza
e oscuro nella tua
trasparenza,
ma i miei occhi
mantengo serrati
mentre il giorno
corre,
finchè l’ora vitale
non giunge
finchè ti incontro,
nata dal nulla,
fiorita, cristallina
davanti ai miei
occhi
e bevo dalla tazza
delle tue labbra
e m iscaldo al sole
del tuo sorriso
e mi sciolgo in
infantile allegria
e se ne vanno dal
mio volto l’ombra e
l’amarezza
e tutto ciò che mi
fa soffrire quando
non ti ho.
Onda che vieni e che
vai
e torni nuovamente
e torni a partire
ma che non si ferma
mai.
In questo oceano di
delizie che è il tuo
corpo
che bagna il mio
corpo
che fa nascere il
sole sul mio volto.
E’ la delizia, la
dolcezza dei miei
giorni
e ad ogni ora ti
aspetto
per regnare sempre
nella mia vita.

Súplica
Reza por mim, amor.
Reza por mim
e não serei um mero
grão disperso,
e não serei um anel
de Saturno
desgarrado, solto no
espaço-tempo
da Eternidade.
Que aqui tudo é
mistério,
tudo é descoberta,
há outro sentido,
outro conceito de
Existência.
Aqui não há espera,
só a lembrança
fugaz,
só a vaga imagem do
teu rosto
na moldura do
Infinito.
Não te deixei, amor,
roubaram-me de ti,
despejando-me no
vácuo do tempo.
Reza por mim,
fumaça disforme ora
diluída,
ora rejuntada,
assumindo formas
várias e inúteis,
bailando aos
dissabores
da inconsciência.
Reza por mim, amor.
Imagina-me como um
lago
de águas puras,
serenas,
e assim hei de ser
para matar minha
sede
de ti.

Terapia do riso
absurdo
Contraídos o risório
e o zigomático,
explode em ti sonora
gargalhada.
Do veneno do teu
riso tão elástico
minhas cordas também
são contagiadas.
Tudo em ti é motivo
de euforia
e até o vento faz-me
cócegas passando.
De tudo rimos e na
falsa alegria
o teu riso com o meu
riso vai rimando.
Com o riso tu me
enganas e eu te
engano.
Se sorrimos, damos
bah! para a
tristeza.
Riamos, que o riso
encobre o dano.
Devemos rir, pois só
o riso nos sobeja.
Serão bobos? vão
dizer. Somos
insanos!
E talvez rindo, a
triste Morte não nos
veja.

Vestuario
Roupas, roupas,
vestimentas,
enganos do corpo,
engodos, farsas.
Panos, panos,
linhos grossos,
fininhos,
obstrução de
caminhos...
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